segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

  • Texto: papelão pintado - Sai daqui, seu verme! – a veia do pescoço saltava. O que você está fazendo aqui?!
  • Sempre se perdia quando ía pro cemitério. De carro já se perdia, lá dentro mais ainda. Fizera toda a viagem nauseado. Entrando, tivera que tomar informações com um dos funcionários para chegar até a capela – recém-pintada; o cheiro das flores.
  • Seu irmão, não parecia ele. Haviam posto um boneco ali para representá-lo mas, óbvio, não era ele. Uma grande farsa. Os funcionários do cemitério sempre faziam isso, já haviam embarcado o verdadeiro corpo para alguma ilha do Pacífico Sul, bem longe dali, onde viveria o resto de seus dias preguiçosamente entre os aborígenes, depois de ser ressuscitado num ritual às margens de um vulcão sempre prestes a entrar em erupção.
  • Enquanto isso, deixaram aquela coisa velha de borracha lá, jogada, no seu lugar. Mas era tão inverossímil. Como a família não se queixara, não fizera alvoroço. Resolveu simplesmente entrar no jogo, fazer o seu papel.
  • - O que é que você veio fazer aqui, seu filho-da-puta? Seu pescoço e peito estavam vermelhos, arfando.
  • Agora sim, começara a perdoar o irmão por tudo que lhe fizera. Ali, vendo aquele boneco de borracha totalmente prostrado, como que vencido, finalmente era preenchido por uma estranha ternura, um estranho sentimento de generosidade.
  • Aprendera, subitamente, a perdoar. Sim, era isso. Claro, pensou, poderia estar simplesmente sendo cínico, agora que está morto... Mas nada era assim, tão simples. Como se tudo agora fizesse sentido, a partir daquele momento, já decidira, passaria a ser uma pessoa melhor.
  • Olhando para aquela máscara de borracha que se desmanchava em borrões de maquiagem, começou a se ater a detalhes em seu rosto que até então não notara, por nunca ter tido permissão para olhar, ou mesmo por vergonha.
  • Descobriu várias coisas naquela mórbida geografia: uma decidida, sulcada (embora geneticamente aleatória - e isso o consolava) semelhança herdada de seu pai - enquanto ele ganhara os traços femininos da mãe. Descobrira então, afinal, que nunca conhecera realmente o irmão e uma luz azul brilhou em sua mente - fazendo com que todo o seu corpo estremecesse num frêmito.
  • - Seu verme! Se você não sair agora... – a mãe segurava a moça pelo braço e pedia calma. Seu próprio irmão! Nunca fez nada por ele, e agora... Vai embora desgraçado, senão te furo os olhos...
  • Aquilo não o chateava; compreendia. Mas queria ficar. Na verdade, tudo começava a tomar contornos surreais – a capelinha que parecia de papelão pintado, o rosto de cera do irmão se desmanchando no calor, a fúria melodramática da sobrinha... Tudo indicava que faziam parte de uma peça.
  • Depois, o enjôo. Este se fora. Não sentia mais nada, só vontade de dormir. Não, dormir, não. Se deitar. Ali. Dentro do caixão.
  • Foi quando ela mandou uma cusparada no seu rosto. Tentou, enfim, enfiar as unhas nos seus olhos. O irmão a segurou, junto da mãe e algum primo. Ele não se importava; estava resignado a permanecer lá, acontecesse o que acontecesse.
  • - Onze anos! Onze anos e esse desgraçado nunca moveu uma palha! Podia ter ajudado... Tanto dinheiro, pra quê?! Enfia no rabo o teu dinheiro, agora, filha-da-puta! Nem uma visita, nem pra saber se estava pra morrer ou não...
  • Então ela desistiu. Começou simplesmente a chorar. Mas pra ele já era tarde. Já se encontrava longe, flutuando, pairando desintegrado em mil pedacinhos, nalgum lugar perto dali.

Nenhum comentário:

Postar um comentário